sábado, 3 de janeiro de 2015

Saudades camarada, saudades!

          João Marcos era um tipo desencontrado com o mundo, encontrado consigo mesmo. Tenho saudades dele. Não havia o conceito de consequência na cabeça dele, era um rapaz de três ou quatro relações, entre o risco de vir quase a ser pai de uma relação semi-tribal com os seu filhos e namoradas. Teve sorte. Mas o que é que ele se importava com isso. Nada, estava só espalhando a sua semente e rezando por segundos que não geminasse. Teve sorte e as suas preces foram atendidas.
          Sonhos, sonhos, sonhos, era disso que ele se alimentava. Juntar uns tostões e ir para Cuba, juntar mais uns e voltar. O verão passava sempre na Dinamarca, trabalhando nas docas entre pescadores, peixeiras e prostitutas, sentia-se em casa. Esse trabalho era o suficiente para voltar e durante os meses do frio se poder alcoolizar, aquecer e gozar do conforto que a casa de uma qualquer amante lhe conseguisse conceder.
           Não escrevia, mas fascinava-se com o que lhe lia quando mais nada falava. Não tocava, mas ficava horas calado a ouvir meia dúzia de músicas que ainda me lembrava dos meus tempos breves de músico. Mas porra, contestava todos esses hábitos meus. Contestava por serem acções reflectivas de acções vividas, por não as ter mantido intactas e por relembrar roubando-lhes assim toda a sua pureza momentânea. Achei psicologicamente fascinante tal afirmação, como se nele houvesse um passado esquecido que não quisesse lembrar, como se nele habitasse mistério. Enganei-me, e com o passar do tempo vi que a sua "amnésia selectiva" era mesmo genuína. "O conhecimento é destruição" disse-me, ele, "quão triste não teria que ser o homem que tivesse que pensar para o seu coração bater".

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