segunda-feira, 28 de julho de 2014

Legitimidade literária

Por vezes pergunto-me se já adquiri legitimidade para escrever, exactamente como me perguntava aos meus 18 ou 21 anos, é certo que vivi, um pouco como todos, é certo que tenho histórias e sonhos para contar, um pouco como todos, e também algumas utopias gritantes, mas pelos vistos os gritos de muitos ainda nada mudaram. É certo que envelheci, talvez rápido demais como uma agreste fervura que cozinha sem apurar o sabor dos ingredientes. Mas o que tenho para escrever ou ser ouvido? Se todos os poemas ou textos apenas parecem relatórios psiquiátricos de uma consulta que não levou a lado nenhum. Será mesmo este o meu destino a escrever? Consumir-me em avalanches de cigarros até finalmente conseguir retirar de mim a ideia mais negra e embelezá-la em algumas estrofes, torná-la sentimento universal e quebrar os pobres corações de quem lê, quebrar a sua felicidade para que possa ser compreendido, num egoísmo poético inerte, que apenas muda as horas antes de ir deitar devido a uma receita para um livro de cabeceira depressivo que muda a cor do copo de água para mijo. No entanto é um sentimento incontrolável de achar a perfeição desinteressante, pois a diferença entre contemplar nuvens ou trovões é inegável. O corpo treme e sente, enraivado torna-se um vício, uma vicissitude de sentir. Sim, tenho legitimidade de oferta, negando culpas de procura funciono como um traficante, quem quiser que consuma  porque eu apenas preciso de me libertar.

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