quarta-feira, 25 de junho de 2014

Capital do meu país

Sobre as nuvens que fumegam trovões no meu acordar
Não consigo deixar de pensar o quanto este acto cansa
Evito o pesar das roupas que me cobrem a nudez da noite
E caminho agora numa casa vazia desfilando a transparência do meu fato
Fumo um cigarro na varanda onde os carros ainda não passam e o dia ainda não começa
Apenas para constatar que os que tenho são poucos para a distância entre o carro e o café
Os que tenho são poucos para a tonelada acumulada de pensamentos mal dormidos...
Encosto-me à parede sentindo o frio da realidade nas minhas costas
Batalhando-se com o fumo do tabaco que já queima os dedos e eclipsa-se em respostas
A necessidade é a vã razão porque existo 
E paradoxalmente necessito não a ter  
Estendo-me agora num chão coberto de braços 
Estendo agora os meus braços para as suas pernas
Estendo agora os meus olhos para o horizonte branco picado do cimento de um vizinho qualquer
Que não conheço, que não falo, que nem sei se existe para este mundo onde estou 
Da solidão da madrugada raiada em sóis apaixonantes que me ignoram
Para que eu fume mais um cigarro, para que eu dê mais um bafo, 
Numa alma amortalhada e enrolada com filtros de preocupações
Para que eu feche os olhos e imagine outra cidade
Para que me perca nas ruas
Da cidade dos Entretantos
Capital do meu país 

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